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  • hikafigueiredo

“Os Amores de Uma Loira”, de Milos Forman, 1965

Filme do dia (41/2024) – “Os Amores de Uma Loira”, de Milos Forman, 1965 – O exército da Tchecoslováquia envia um pelotão de reservistas a um vilarejo fabril onde muitas jovens operárias sentem-se solitárias pela escassez de rapazes. No baile de apresentação dos soldados, a ingênua Andula (Hana Brejchová) envolve-se com Milda (Vladimir Pucholt), o pianista da banda. Quando Milda retorna a Praga, sua cidade natal, Andula resolve ir atrás do pretenso namorado.




 

Apesar do nome do filme sugerir uma história apimentada, nos moldes das pornochanchadas brasileiras da década de 1970, a obra, na realidade, é um singelo conto acerca da juventude tcheca sessentista. O filme integra o rol de obras da chamada “Nouvelle Vague Tcheca”, um movimento cinematográfico de vanguarda surgido entre 1960 e 1970 e que retratava, sem romantismos ou floreios, a juventude do país, suas desilusões e seus conflitos com as gerações anteriores, tudo diretamente influenciado por um breve período de abertura política denominada “Primavera de Praga”. Como legítimo representante do movimento, o filme foca nas jovens operárias solitárias de uma pequena vila que sobrevive graças às fábricas locais, com destaque para a ingênua Andula, uma moça que, nos dias de hoje, seria chamada de “emocionada”, porquanto se apaixonar rapidamente por qualquer rapaz que lhe desse atenção. A obra se caracteriza por não buscar o excepcional – ao contrário, a narrativa é um recorte quase banal de situações comuns vivenciadas por jovens sem qualquer característica extraordinária. O filme, assim, é hábil em mostrar, com crueza, a existência comum daqueles jovens – qualquer espectador consegue se reconhecer, em algum dos papeis, na longa cena do flerte no baile, por exemplo, e é justamente nessa proximidade da realidade que o filme arrebata o público. A própria protagonista é um retrato fiel das jovens da época, que viviam o conflito entre seguir o rígido cânone moral imposto pelas gerações anteriores ou vivenciar a liberdade – afetiva, política, sexual – sugerida por sua própria geração. Neste diapasão, Andula acaba por seguir seus sentimentos e instintos, ambos profundamente influenciados por um romantismo sem limites, o que pode lhe trazer alguns dissabores. A narrativa é linear, num ritmo lentíssimo – essa sensação de lentidão é exponenciada pelo fato de não acontecerem situações extravagantes, pois o desencadear da história chega a ser óbvio. A atmosfera transita entre o desalento e a esperança  - Andula e suas amigas aguardam aquele momento especial, aquele acontecimento que lhes trará uma alegria incomensurável e que trará uma razão para continuar a viver e, enquanto esse momento não acontece, elas sonham, sonham muito. Formalmente, a obra é seca -  o diretor Milos Forman (para quem não se lembra, diretor de “Um Estranho no Ninho”, 1976, e “Amadeus”, 1985, filmes que lhe renderam Oscares de Melhor Direção) evita qualquer subterfúgio que embeleze, romantize ou engrandeça a narrativa: não há uma fotografia maravilhosa e nem uma música que “cresça” em momentos-chave, assim como o desenho de produção não traz cenários belíssimos nem figurinos marcantes - tudo é milimetricamente pensado para ser muito real e comum. As interpretações, da mesma maneira, são bem realistas, sem qualquer floreado. Hana Brejchová interpreta, com sensibilidade, a sonhadora Andula e traz dois momentos bem emocionantes: sua reação, atrás da porta, ao diálogo de Milda com seus pais, e seu diálogo final com a amiga de quarto; Vladimir Pulcholt interpreta o músico Milda e mostra um jovem homem fazendo “homice”; Vladimir Mensik interpreta o Vacovski e é responsável pela cena de flerte mais real que eu me lembro de ter visto no cinema. A obra concorreu ao Leão de Ouro e ao Prêmio Especial do Juri em Veneza (1965) e ao Oscar (1967) e Globo de Ouro (1967) na categoria de Melhor Filme Estrangeiro. É um filme magnífico por sua singeleza e simplicidade. Gostei bastante e recomendo (pelo que eu vi está disponível em streaming pelo Oldflix).

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