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  • hikafigueiredo

“Os Assassinos da Lua das Flores”, de Martin Scorsese, 2023

Filme do dia (162/2023) – “Os Assassinos da Lua das Flores”, de Martin Scorsese, 2023 – Oklahoma, EUA, década de 1920. A tribo Osage descobre petróleo em suas terras, o que resulta num rápido enriquecimento desse povo indígena. Ocorre que, paulatinamente, membros da tribo começam a morrer misteriosamente, inexistindo qualquer investigação acerca de tais mortes. Neste contexto, chega ao local Ernest (Leonardo DiCaprio), sobrinho de um poderoso fazendeiro local, William Hale (Robert De Niro). Orientado pelo tio, Ernest envolve-se com Mollie (Lily Gladstone), uma jovem da tribo Osage, relação que trará graves consequências a todos os envolvidos.





Baseado no livro homônimo de não-ficção do jornalista David Grann, o filme trata de uma série de assassinatos ocorridos na década de 1920 envolvendo indígenas da tribo Osage e da investigação do nascente FBI acerca de tais acontecimentos. Muito embora o foco esteja, especificamente, no envolvimento dos personagens reais Ernest e William nestes assassinatos, a obra traz um panorama geral das consequências da descoberta do petróleo nas terras da tribo Osage. Um ponto que é necessário destacar: tanto o livro, quanto o filme trazem a visão “exógena” da questão, isto é, temos o olhar do branco colonizador acerca da tribo colonizada e isso, por vezes, pode trazer um viés equivocado sobre o tema. Em ambos, o protagonismo é exclusivamente do colonizador branco e isso resulta numa ideia errônea de absoluta passividade dos nativos. Aliás, a figura do “homem branco salvador” é recorrente em Hollywood, não apenas em relação aos nativos estadunidenses, mas, também, em relação à população negra – só para lembrar alguns, é o que acontece nas obras “Histórias Cruzadas” (2011) e no equivocadíssimo “Green Book” (2018). Mais uma vez, será a ação do “branco salvador” que será exaltada e narrada, de forma que qualquer protagonismo “nativo” acaba silenciado ou, ao menos, diminuído – acredito que não é necessário destacar as consequências nefastas deste silenciamento para tais comunidades, certo? Isto posto, sabendo tratar-se de uma leitura “branca” da questão, podemos discorrer sobre o conteúdo do filme. A obra apresenta algumas consequências da inclusão da sociedade Osage no sistema capitalista à partir da descoberta do petróleo em suas terras. Se, num primeiro momento, isso significa um aporte financeiro e material à tribo, em pouco tempo leva a um princípio de aculturação daquela nação, que, gradativamente, é “engolida” por valores relacionados ao colonizador. E o que o filme mostra é aterrador: os brancos colonizadores arranjando os meios mais pérfidos de transferir as terras Osage para suas próprias mãos através de casamentos entre brancos e nativos e o posterior assassinato dos indígenas. A narrativa é quase completamente linear, com alguns poucos flashbacks, em um ritmo bem marcado que consegue amenizar – e muito- as três horas e meia de duração da obra. A atmosfera é de urgência, o espectador se aflige com as mortes sucessivas, cada vez mais próximas da personagem Mollie, aquele climão de suspense tão bem trabalhado por Scorsese. Eu, particularmente, achei que o filme traz o diretor em um ótimo momento, resgatando um “volume” que há tempos não via nas suas obras (confesso que “O Irlandês”, 2019, não me cativou como eu esperava). Gostei muito da fotografia do filme, que traz sequências de movimentos de câmera que me remeteram ao ótimo “Depois de Horas” (1985). Também destaco o desenho de produção de época impecável. Quanto às interpretações, gostei bastante do trabalho de DiCaprio, num personagem que não costuma ser muito a sua tônica – Ernest é verdadeiramente desprezível, um sujeito covarde em todas as acepções possíveis e que, mesmo tendo sentimentos legítimos por Mollie, é incapaz de enfrentar seu tio William, seguindo, como um robô, todas as suas terríveis orientações; Robert De Niro também está ótimo como o hipócrita William, um sujeito capaz de qualquer coisa para atingir seus objetivos. Mas o filme, na minha opinião, é da irretocável Lily Gladstone – a altivez e resiliência de Mollie fazem-na gigante, personagem maravilhosa. No elenco, ainda, Brendan Fraser como o advogado Hamilton, Jesse Plemons como o investigador Tom White, John Lithgow como o Promotor Leaward, dentre outros. Gostei de ver vários atores e atrizes de origem nativa no elenco, inclusive a própria Lily Gladstone – pela representatividade!!!! A obra está sendo muito bem cotada para as premiações do começo do ano que vem e Lily Gladstone já foi, inclusive, agraciada com o prêmio de Melhor Atriz pelo New York Film Critics Awards, assim como o filme com o prêmio de Melhor Filme. Aguardemos os próximos capítulos. Gostei muito e recomendo.

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