• hikafigueiredo

"Os Dois Mundos de Charly", de Ralph Nelson, 1968

Filme do dia (07/2022) - "Os Dois Mundos de Charly", de Ralph Nelson, 1968 - Charly Gordon (Cliff Robertson) é um homem com sério déficit intelectual que é convidado a participar de uma pesquisa onde sua capacidade intelectual seria redesignada. Ele participa do experimento e, em pouco tempo, torna-se genial, ganhando a admiração e o afeto de sua antiga professora, Sra. Kinian (Claire Bloom).




Adaptação para o cinema do livro "Flores para Algernon", de Daniel Keyes, a obra discorre sobre inocência e percepção do mundo, sobre crueldade e preconceito para com quem é diferente e sobre a responsabilidade dos cientistas acerca de suas pesquisas. A história nos apresenta Charly, um homem com profundo déficit cognitivo que, apesar disso, esforça-se - sem sucesso - para aprender. Charly caracteriza-se por sua boa índole, alegria e inocência, sendo incapaz de perceber as humilhações e maldades que lhe são dispensadas. Convidado a participar de um experimento, Charly submete-se a uma cirurgia que, em pouco tempo, lhe confere uma inteligência acima da média. Sua nova capacidade intelectual possibilita a Charly conectar-se com o mundo de outras formas, mas, também, faz com que passe a perceber a crueldade e o preconceito existente na sociedade, fazendo com que se descubra só e sem amigos. Rapidamente, Charly desenvolve seu potencial intelectual, de forma que ganha a admiração de sua professora Sra. Kinian. A narrativa é linear, em ritmo bem marcado. A atmosfera é predominantemente otimista, até acontecer um plot twist que modifica tudo, trazendo um clima de angústia à história. O desfecho pode levar às lágrimas os espectadores mais sensíveis. O roteiro desenvolve-se bem, mas, lá no meio, ocorre uma ruptura que eu achei muito estranha, momento em que a professora de Charly passa a vê-lo com outros olhos, o que eu achei doentio e pouco crível (mas pode ser uma percepção pessoal apenas). Formalmente, o filme ousa aqui e ali, brincando com a linguagem cinematográfica, muito embora, na maior parte do tempo, permaneça dentro do convencional - assim, temos algumas cenas em que a tela é bipartida, mostrando a mesma imagem, mas de ângulos diferentes; cenas em que pipocam pequenos quadrados contendo diferentes momentos dos personagens; e cenas em que a linguagem cinematográfica tradicional é completamente subvertida, trazendo para a tela o frenesi emocional do personagem. Destaque para a trilha sonora do compositor indiano Ravi Shankar - conhecido por suas participações em músicas dos Beatles -, que traz delicadeza e sensibilidade incomuns ao filme. O elenco traz Cliff Robertson no papel de Charly - o ator precisou marcar bem a evolução do personagem, que vai do inocente com séria restrição cognitiva a um homem a um passo da genialidade, mas marcado por muitas amarguras. Robertson fez um belo trabalho de interpretação, tanto que foi agraciado com o Oscar de Melhor Ator em 1969 pelo papel. No elenco, ainda, Claire Bloom como Sra. Kinian, Lilia Skala como Dra. Strauss e Leon Janney como Dr. Nemur. A obra ainda recebeu o Globo de Ouro de Melhor Roteiro (1968). Vejo um diálogo desta obra com o tristíssimo "Tempo de Despertar" (1990) e até mesmo com o genial "Laranja Mecânica" (1971), ambos pela questão da responsabilidade científica. O filme ganhou um remake em 2000 pelas mãos do diretor Jeff Bleckner, sob o título traduzido "Um Amigo para Algernon". Eis um filme que traz uma série de reflexões acerca dos temas já elencados. Como o protagonista, o espectador é levado a se questionar acerca de sua percepção de mundo, sua relação com o outro, sua capacidade de compreensão - de si, do outro e do mundo - e até mesmo sobre seus objetivos e seus legados. Eu terminei o filme em profundo silêncio e numa introspecção anormais em mim. É um ótimo filme, gostei bastante e recomendo!

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