• hikafigueiredo

"Os Inocentes", de Jack Clayton, 1961

Atualizado: 10 de mar.

Filme do dia (192/2018) - "Os Inocentes", de Jack Clayton, 1961 - A jovem Miss Giddens (Deborah Kerr) é contratada para ser a governanta e única responsável por Flora (Pamela Franklin) e Milles (Martins Stephens), duas crianças órfãs que vivem em uma distante casa de campo de seu rico tio. Rapidamente, a tutora percebe que a casa e as crianças possuem muitos segredos.





O filme, uma das melhores - senão a melhor - obras de terror psicológico de todos os tempos, impressiona até o público que não é fã do gênero. Baseado no livro "A Outra Volta do Parafuso", de Henry James, o filme apresenta a ruptura da inocência, transformada em mentira, perversão, abominação. A obra mostra como os personagens centrais - a governanta e as duas crianças - sofrem a influência maligna de dois empregados da casa recentemente falecidos e que viviam um relacionamento amoroso/sexual completamente escandaloso para a época vitoriana em que se passa. Mas, para mim, o que é mais incrível no filme é a capacidade que ele tem de criar a dúvida - as entidades fantasmagóricas e malignas que assombram a governanta existem ou são fruto da imaginação doentia da mulher???? Eu já havia assistido à obra antes e, na ocasião, observei a narrativa sob o ponto de vista da governanta, aceitando a presença dos seres sobrenaturais como real - e o filme foi completamente apavorante, pois conseguia perceber a perversidade daqueles seres e seu reflexo nas crianças, vendo-as como verdadeiros demoninhos. Na oportunidade, vi mentira e dissimulação em casa frase daqueles órfãos, completamente tomados de sua inocência. Quase por curiosidade, resolvi assistir novamente à obra, mas, desta vez, assumindo um outro ponto de vista - e se tudo não passasse de imaginação da governanta, sugestionada por seu receio de assumir tamanha responsabilidade??? Por incrível que pareça, o filme continuou excepcional por este viés!!! Ao assumir a ideia de que tudo não passava de sugestão da tutora das crianças, passei a ver a personagem como alguém completamente fora de suas faculdades mentais - e aqui, a perda da inocência é da governanta, que passa a ver pecado e abominação em tudo, que relega às crianças maldades indizíveis e que passa a torturá-las psicologicamente para que confessem algo que só ela vê e sabe o que é. Sob esse aspecto, passei a não ver mais qualquer dissimulação nas crianças, mas um comportamento compreensível para crianças abandonadas, sem amor, que haviam perdido recentemente pessoas com quem haviam estabelecido forte relação de afeto e que, pressionadas pela professora, "espanam" e colocam para fora toda a dor e mágoa reprimida. Eu realmente fiquei impressionada como a obra possibilita a dupla leitura, ambas perfeitas, ambas assustadoras, ambas incômodas. Independente da leitura que se faça, o desenvolvimento da narrativa é sublime, não possui uma única aresta a ser aparada. A construção da tensão é constante e crescente - não há as bobas cenas de "jumpscare", tão comuns nos filmes de terror atuais, que, na minha opinião, apenas simulam um terror real; aqui, ao contrário, o terror é construído pedra a pedra, transformando o medo em algo sólido, palpável. Além do roteiro inigualável (aliás, assinado, dentre outros, por ninguém menos que Truman Capote!!!), os elementos técnicos são magnificamente usados para criar medo e tensão, da fotografia P&B bem marcada à trilha sonora (acho que esse foi o primeiro filme a usar uma música cantarolada por um criança, coisa assustadora, e que foi usada "ad infinitum" pelos filmes de terror posteriores, nunca chegando à maestria desta obra aqui). Agora, o filme não seria o que é, também, se não fossem as interpretações magistrais dos intérpretes envolvidos. As crianças são incríveis, passam essa sensação de dubiedade de maneira impressionante - você pode vê-las como doces e traumatizadas vítimas, você pode vê-las como uns serzinhos do mal, cínicos, oportunistas, manipuladores e, acima de tudo, ruins, fica a seu bel-prazer e leitura. Mas, escandalosa MESMO é a interpretação de Deborah Kerr - aliás, a própria atriz considerava essa sua grande atuação no cinema! Veja-a como insana ou como uma mulher apavorada ao extremo, sua expressividade é algo inacreditável. Seu olhar transmite crise, dúvida, medo, é tanta coisa, é tão complexo, que eu nem consigo explicar. O filme não é bom, é FANTÁSTICO, É NOTÁVEL, É OBRIGATÓRIO!!!! Quem não viu, tem que ver!!!! PS - Somente um filme de terror, na minha opinião, é tão bom quanto esse - "Desafio do Além", de Robert Wise, 1963, outro filme de terror psicológico que também levanta dúvidas e ainda tem a cena, para mim, mais apavorante do cinema de terror (a cena da mão). Outro que preciosa ser visto, obrigatoriamente!!!!

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