• hikafigueiredo

"Os Libertinos", de Jean-Pierre Mocky, 1959

Filme do dia (295/2021) - "Os Libertinos", de Jean-Pierre Mocky, 1959 - Em Paris, o confiante Freddy (Jacques Charrier) e o tímido Joseph (Charles Aznavour) acabam de se conhecer. Em comum, a busca incessante pelo prazer através da conquista do sexo oposto. Durante uma tarde e uma noite, a dupla irá vagar pela cidade atrás de uma companhia feminina, buscando-a, cada qual, à sua moda.




Confesso que tive sentimentos bem contraditórios quanto a este filme. Por mais que eu entenda que o filme é uma ode à liberdade sexual, algo muito compreensível para aquele momento, e, ao mesmo tempo, uma crítica à superficialidade de relacionamentos, ao vazio existencial, à solidão auto imposta, a maneira com que os homens da história - principalmente Freddy - abordam as mulheres me causou profundo desconforto. Compreendo que existe uma crítica àquela conduta, mas, ainda assim, vejo uma obra moldada pelo machismo e pela dominação da mulher pelo homem. "Ah, mas essa é uma leitura completamente extemporânea" - okay, pode ser, mas é um olhar sobre como e a quanto tempo mulheres são assediadas pelos homens de uma forma obscena, afinal há uma grande distância entre flerte e assédio. Na história, homens e mulheres estão "à caça" - todos buscam um jeito de atrair o sexo oposto para, ao menos, uma boa noite de sexo e, quem sabe, um posterior relacionamento agradável. No entanto, enquanto as mulheres do filme tentam "envolver" os homens que se mostram interessados, os homens as assediam diretamente, tocando-as, muitas vezes de forma íntima, antes de terem uma resposta positiva. Além disso, existe clara compartimentação entre as moças "fáceis" e as "difíceis", as primeiras sendo rejeitadas em detrimento das últimas. Eu vejo nisso uma grande objetificação da mulher - ela é um objetivo a ser conquistado, uma coisa, não um ser humano com sentimentos e particularidades que a tornam única. O personagem Freddy, inclusive, tem uma frase que remete ao clássico "enquanto não acho a mulher certa, vou me divertindo com as erradas" - para mim isso é a mais pura objetificação da mulher. Ainda que eu veja uma crítica à conduta de Freddy - até mesmo pelo seu desfecho (sem spoilers) - essa crítica não é voltada para o ponto específico que me incomodou (não sei se isso ficará claro para o espectador do sexo masculino que ler esse escrito, mas tenho certeza que muitas mulheres concordarão comigo se assistirem ao filme). Assim, minha leitura acerca da obra, necessariamente passa por este desconforto mencionado, o que terá consequências na forma de receber o filme. A narrativa é linear, abrangendo menos de 24 horas na vida dos dois jovens. O ritmo é marcado, até mesmo para dar noção da "rotatividade" de potenciais parceiras. Não saberia dizer qual foi a atmosfera que o diretor quis imprimir ao filme - pela minha leitura feminista, eu quase só senti desconforto a maior parte do tempo, mas acredito que ele quis misturar excitação (pela prática da conquista) e angústia (pela solidão decorrente da forma de "não-se-relacionar" com o objeto de conquista), mas isso é apenas um palpite. A linguagem utilizada é bem tradicional, a ousadia encontra-se mesmo no conteúdo, não na forma da obra. O jeito como os personagens zanzam pela cidade me lembrou um "road movie", só que num mesmo espaço geográfico, no caso, Paris. A fotografia é P&B, suave, pouco contrastada, composta por planos médios a maior parte do tempo e pouco participando da construção de atmosfera. A trilha sonora também é pouco incisiva (a ponto de não ter me chamado a atenção em momento algum). O elenco principal é formado por Jacques Charrier e Charles Aznavour, os quais interpretam dois personagens os mais díspares. Jacques Charrier interpreta Freddy: autoconfiante, abusado, no fundo ele busca incessantemente "a mulher ideal" - para mim, ele é o estereótipo do machista, aquele tipo cafajeste que ainda possa de pobre moço solitário, sensível e incompreendido. Charrier está tão bem no personagem que me vi com raiva do ator... rs. No outro extremo, temos Aznavour como Joseph, um tipo acanhado, desajeitado e que, no fundo, quer apenas encontrar uma companhia para sua solidão. O personagem é muito mais sensível às necessidades das potenciais parceiras e se preocupa com elas. Aznavour mostra sua capacidade de atuação, trazendo muita simpatia ao personagem (não que ele não tenha sua cota de cafajestice, mas, em comparação ao companheiro de empreitada, ele parece ótimo. O elenco feminino é gigantesco, já que os personagens "pulam" de mulher em mulher durante a narrativa toda, mas o destaque evidente é Anouk Aimée como Jeanne. Nenhuma das personagens femininas fica tempo suficiente em cena para ser aprofundada, então, todas são bastante estereotipadas (a grudenta, a amiga gente boa, a adolescente, a sofrida, a estrangeira em busca de emoção...). O filme me passou de forma desajeitada... como fiquei incomodada, acho que não o absorvi como deveria, mas ele me manteve o tempo todo interessada. É uma obra interessante, sim, mas teria de assistir mais uma vez para ver se consigo ler de um jeito menos crítico... rs. De qualquer forma, acho que vale a visita, principalmente para as mulheres (depois venham aqui e me digam suas impressões, por favor! rs).

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