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“Os Pequenos Amores”, de Celia Rico Clavellino, 2024

  • hikafigueiredo
  • 19 de out. de 2024
  • 2 min de leitura

Filme do dia (122/2024) – “Os Pequenos Amores”, de Celia Rico Clavellino, 2024 – Teresa (Maria Vázquez), é uma mulher de quarenta e dois anos que é obrigada a mudar-se para a casa de sua mãe Ani (Adriana Ozores) durante as férias de verão devido a um acidente doméstico sofrido pela última. Acostumadas a viverem sozinhas há anos, o contato entre as duas poderá ser diferente do que elas esperavam.





Com uma temática essencialmente feminina, este delicado drama discorre sobre a relação entre mãe e filha – não apenas a relação momentânea, pontual, mas aquela acumulada de anos de contato, próximo ou distante. A obra é marcada por minúcias, detalhes, tudo é muito sutil. A narrativa inicia com um pequeno acidente que Ani, a mãe, sofre, o que faz com que ela tenha de imobilizar a perna por um período. Sua filha Teresa, então, se muda para a casa dela, no interior da Espanha, para auxiliá-la. Os primeiros dias revelam a tensão deste contato forçado – ambas, acostumadas com a solitude, irritam-se sutilmente uma com a outra; as opiniões são inflexíveis, as discordâncias, ainda que discretas, são constantes e as duas demonstram teimosia. Com o passar dos dias, no entanto, a tensão parece desvanecer e surge uma certa curiosidade de uma pela outra. Paulatinamente, as defesas caem, a resistências some e a relação parece ser reconstruída, ou, ao menos, retomada e estreitada. A mãe, embora fragilizada pelo acidente, mostra-se decidida – a vida, que fora difícil com ela, fez com que se fortalecesse, sem amargura, mas com a praticidade de quem não tem tempo para picuinhas. A filha, por sua vez, que se dirigiu para a casa da mãe para lhe dar suporte, revela gradativamente seus medos, fragilidades e inseguranças, e encontra, na mãe, a força, acolhimento e sensatez que necessitava. Ao final, com a confiança estabelecida, ambas se sentem à vontade para fazerem revelações que antes certamente não fariam. A narrativa é linear, em ritmo bastante pausado e com pouquíssima ação. A atmosfera é preguiçosa, mas cálida, cheia de afeto – afetos sutis, que fique claro, inexistem arroubos ou emoções intensas. Também é um filme com muitos silêncios – muito sentimentos afloram, quase sempre sem precisar de palavras. A trilha sonora é basicamente diegética, ou seja, pertencente àquele universo ficcional. A fotografia de cores suaves opta por poucos movimentos de câmera e muitas câmeras fixas em planos médios ou abertos – é uma câmera que observa e pouco ou nada participa ativamente da narrativa. Quanto ao elenco, restritíssimo, apoia-se na presença marcante de Maria Vázquez como Teresa e Adriana Ozores como Ani, ambas muito convincentes como a doce e insegura filha e a decidida mãe. O ator Aimar Vega interpreta o pintor Jonas, que faz um contraponto interessante com a personagem Teresa. O filme é muito doce, mas é necessária uma alma muito feminina – e, se possível, alguma experiência com a maternidade – para aproveitá-lo (acredito que homens, se compreenderem as sutilezas, vão achar chatésimo). Eu gostei, ele me tocou. Assistido na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.

 
 
 

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