• hikafigueiredo

"Para Minha Amada Morta", de Aly Muritiba, 2015

Filme do dia (437/2020) - "Para Minha Amada Morta", de Aly Muritiba, 2015 - Após a morte de sua esposa, Fernando (Fernando Alves Pinto) vive um eterno luto, passando os dias entre os cuidados com o filho do casal e a obsessiva organização dos pertences da falecida. Certo dia, entre roupas, sapatos e fotografias de sua esposa, carinhosamente tratados por Fernando, ele encontra uma fita de vídeo em que descobre uma traição dela. Desacorçoado, Fernando sai atrás de respostas para o ocorrido.





Eu diria que este filme trata, antes de tudo, de uma obsessão, daquelas que cegam, petrificam e impedem que o obsessivo siga adiante. O personagem Fernando encontra-se estacionado na vida, levando sua existência em uma inércia onde só existem a dor e o luto. Quando ele encontra a fita de vídeo incriminadora, sua obsessão apenas toma novo viés, fazendo com que o personagem parta para uma investigação solitária para descobrir quem era seu rival naquele sofrido triângulo amoroso. E aí chegamos na principal característica do filme - o estabelecimento de uma expectativa que pode ou não evoluir para uma tragédia. Fernando descobre o paradeiro do homem que aparece nas imagens do vídeo e passa a "stalkeá-lo", aproximando-se dele e de sua família. Não são poucas as cenas em que o diretor sugere uma conduta que sequer chega a acontecer, mas que é suficiente para criar, no espectador, uma expectativa e, dessa, uma tensão angustiante. Durante o filme inteiro, inclusive, o diretor "brinca" com os nervos do público, sempre flertando com o perigo, levando o espectador a suspender a respiração por alguns segundos, certo de que "agora vai". Independente dos acontecimentos, é certo que, ao final, Fernando supera sua dor, seu luto e sua inércia através de um longo processo onde "exorciza" sua obsessão. A narrativa é cronológica e tem o ritmo necessário para a cura de uma doença, ou seja, lento e pausado. A atmosfera é de eterna apreensão. A obra é construída com minúcias, com detalhes aqui e ali que se encaixam aos poucos. Tecnicamente, é um filme bem construído: fotografia, direção de arte, som e montagem, tudo em perfeita interação. Fernando Alves Pinto está bastante bem no papel, trazendo um peso necessário e um certo cinismo ao personagem Fernando; Lourinelson Vladmir, por sua vez, traz solidez ao personagem Salvador. Achei a personagem Raquel, interpretada por Mayana Neiva, inverossímil e, sua total falta de ação, extremamente irreal. Gostei de Giuly Biancato como a menina Estela, a personagem, diferentemente da mãe, é bastante factível. A obra é bastante intimista e eu até gostei dessa brincadeira com as expectativas do público - mas acho que vai ter espectador que vai se incomodar com o resultado final (sem spoilers), por isso, não acho que seja obra para qualquer público, há que se lidar bem o anticlímax para se gostar do filme. Não diria que amei a obra, mas tem seus méritos.

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