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  • hikafigueiredo

“Pedro, O Negro”, de Milos Forman, 1964

Filme do dia (43/2024) – “Pedro, O Negro”, de Milos Forman, 1964 – Petr (Ladislav Jakim) é um adolescente de dezesseis anos que é chamado para trabalhar como estagiário de prevenção de perdas em um armazém. Seu trabalho consiste em evitar eventuais furtos, mas ele tem certa dificuldade em abordar os clientes suspeitos. Seu maior interesse, no entanto, é sua amiga Pavla (Pavla Martinková), por quem está apaixonado.




 

Milos Forman foi um dos expoentes do movimento cinematográfico chamado de Nouvelle Vague Tcheca, surgido entre as décadas de 1960 e 1970 na esteira da abertura política conhecida como Primavera de Praga. Uma das características do movimento foi dar voz às novas gerações, retratando o cotidiano dos jovens e o choque com as gerações anteriores. Como no já comentado “Os Amores de Uma Loira” (1965), aqui também temos um pequeno recorte do dia a dia do protagonista, o qual resume as questões vivenciadas pelos jovens tchecos daquele momento. Petr é um jovem de dezesseis anos que consegue seu primeiro emprego em um armazém como fiscal de perdas. Ele sofre a pressão do patrão para que cumpra com eficácia seu trabalho, muito embora o próprio chefe não consiga explicar, com objetividade, como deve ser sua postura perante os clientes – a explicação é confusa e ambígua, dizendo que a confiança nos clientes é total, mas alguns não são confiáveis, jogando para o jovem a decisão de como agir com os possíveis suspeitos. Em casa, Petr sofre pressão do pai e da mãe, que despejam sobre o rapaz milhares de críticas sem, antes, perguntar sobre as orientações que o jovem recebeu. Assim, a narrativa foca na total ausência de diálogo entre as gerações, a falta de voz dos jovens, a crítica severa que a juventude sofre, a ausência de foco das novas gerações e a incapacidade dos mais velhos em darem orientações lógicas e precisas àqueles que estão vicejando. Interessante, ainda, acompanhar as cenas em que os jovens interagem, as quais retratam certo niilismo, jovens que tem dificuldade em definir objetivos e que seguem, na inércia, vidas confusas e vazias. Como em “Os Amores de Uma Loira”, temos também uma cena de baile e de flerte, quase tão boa quanto do filme mencionado. O personagem Cenda aparece completamente perdido em sua tentativa de abordar a “moça de azul”, a demonstrar a falta de traquejo do rapaz com o gênero feminino. Fiquei muito incomodada com um pequeno fragmento da cena em que um namorado agride duas ou três vezes a namorada, em meio a uma discussão, sem causar qualquer indignação ou estranhamento nas pessoas que os rodeiam – machismo e misoginia gritando alto aqui. A narrativa é linear, em ritmo muito lento, sem retratar acontecimentos excepcionais, mas, sim, apegando-se ao cotidiano banal de Petr. A linguagem utilizada é crua, não existe a tentativa de transformar aquela realidade em algo mais bonito do que é. A fotografia P&B é meio desmaiada, não existe um trabalho de glamourização das cenas. A trilha musical aproveita muito a música diegética, isto é, o que está tocando naquele universo ficcional. Há, ainda, uma valorização dos silêncios quando da ausência desta música diegética. As interpretações, por sua vez, são discretas, bem naturalistas e sem grandes arroubos emocionais. Gostei do trabalho de Ladislav Jakim, ele consegue transmitir certo vazio de Petr, a inércia em que ele vive. Gostei também de Vladimir Pucholt como Cenda, um personagem contraditório e mais complexo que Petr (Milos Forman volta a trabalhar com o ator no ótimo “Os Amores de Uma Loira”). O filme é diferentão, algo completamente diverso do cinema hollywoodiano. Acho que vale a visita, ainda que não seja a melhor obra do diretor, e é necessário paciência com o ritmo específico da obra.

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