• hikafigueiredo

"Pickpocket", de Robert Bresson, 1959

Filme do dia (329/2020) - "Pickpocket", de Robert Bresson, 1959 - Michael (Martin LaSelle) é um rapaz comum que, sem meios de sobrevivência, começa a praticar pequenos furtos de maneira amadora. Com o tempo, torna-se, no entanto, um batedor de carteiras hábil e audacioso. Sem culpa pela vida delituosa que leva, Michael só encontra em Jeanne (Marika Green) um elemento de consciência capaz de impedi-lo de persistir no crime.




Considerado como a grande obra prima de Bresson, o filme é inspirado na obra "Crime e Castigo", de Fiódor Dostoiévski, e acompanha o protagonista desde o início de sua vida criminosa até alcançar alguma redenção. A discussão, aqui, gira em torno de responsabilidade pelos atos, culpa e redenção. Através de uma narração em off do próprio personagem e que acompanha a conduta do furtador, sabemos como o protagonista se sente a cada ação criminosa. Se inicialmente Michael furta apenas para se manter, aos poucos ele passa a se orgulhar de sua habilidade e do sucesso de suas ações e os furtos deixam de ser um meio para alcançar algo e passam a ser o fim em si. Enquanto isso, percebemos sutis mudanças na questão da consciência do protagonista, pois passamos de um princípio cheio de culpa, para uma situação de completa ausência de crise de consciência e, por fim, uma retomada da culpa e tentativa de se recuperar por conta da relação com Jeanne. Apesar de ser um filme carregado de questões psicológicas, ele chega a ser minimalista nas emoções - nenhum dos personagens exagera nas expressões, tudo é sutil e discreto e o auge da emoção pode ser uma lágrima furtiva de canto de olho em um rosto quase impassível, de uma frieza nórdica. Curioso que essa falta de emoção e expressão não impedem que o ator Martin LaSelle consiga passar, cirurgicamente, os momentos de apreensão pré-furto quando do início da carreira criminosa do personagem, tudo através de seu olhar atento - é difícil até de explicar. A narrativa é extremamente concisa, não há exatamente um fluência suave, mas pequenos "saltos" de uma cena a outra e todas são essenciais, não há cena dispensável ou "morta". Não espere um "filme policial" - o que temos é um estudo psicológico de personagem dentro de um filme dramático. Também não espere ritmo ágil ou atmosfera tensa - como eu já disse, tudo é contido e sutil, TUDO. Destaque absoluto para a "coreografia" dos furtos, principalmente quando ele passa a agir em conjunto com comparsas - são carteiras e relógios que escapam habilmente de uma mão a outra, é incrível. A fotografia é P&B suave e são muitas as cenas de detalhes, em especial durante as ações criminosas de Michael. A música é pontual e não aparece como elemento de manipulação do espectador (coisa comum no cinema norte-americano e que eu odeio). As interpretações, como já dito, são discretas, circunspectas, mas, ainda assim, capazes de causar impacto. Ainda que o filme seja magistral, para mim perde em preferência para "O Dinheiro" (1983) e para "Um Condenado à Morte Escapou" (1956), dois filmes que me fizeram apaixonar pelo diretor. De qualquer forma, é daquelas obras essenciais para quem quer conhecer a fundo o cinema mundial. Recomendo muito.

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