• hikafigueiredo

"Pixote - A Lei do Mais Fraco", de Hector Babenco, 1980

Filme do dia (71/2022) - "Pixote - A Lei do Mais Fraco", de Hector Babenco, 1980 - O garoto Pixote (Fernando Ramos da Silva), de dez anos, é recolhido em um reformatório para meninos infratores e logo entra em contato com o pior da criminalidade, assim como com a violência institucional.





Com um pé no documentário e com forte influência do neo-realismo italiano, o filme retrata tanto a dura realidade das crianças de rua que as leva a caírem, desde muito cedo, na criminalidade, quanto a violência e a corrupção institucionais, que pioram os sentimentos de injustiça e desesperança vivenciados por aquelas crianças. O filme é composto por dois blocos - no primeiro, Pixote encontra-se recolhido em um abrigo para menores infratores; aí, ele sofrerá toda a sorte de violências, tanto por parte de outros abrigados, quanto por parte de diversas figuras de autoridade, sejam funcionários do abrigo ou policiais. No local, ainda, ele será testemunha de injustiças atrozes, crimes diversos, mentiras, corrupção e, claro, ainda mais violência. No segundo bloco, Pixote ganha as ruas e, acompanhado de outros ex-abrigados, desenvolverá todo o seu potencial para o crime. Na rua, Pixote entrará em contato com o tráfico de drogas, com a prostituição, com assaltos e até assassinatos, além de descobrir a fragilidade da vida humana, perdendo alguns de seus amigos para a violência. Em comum aos dois blocos, o tratamento desumano dispensado às crianças sem família, a injustiça, a miséria e, mais uma vez, a violência. O registro é cru, extremamente pesado e não acena com qualquer mísera luz no fim do túnel. A narrativa é linear, em ritmo marcado. A atmosfera é de dor, sofrimento, angústia e total desesperança. O filme assume uma estética que remete aos documentários, com uma fotografia e direção de arte essencialmente naturalistas. A música de John Neschling é o único elemento que foge deste naturalismo, legando um toque de delicadeza e sensibilidade ao filme. O elenco, repleto de jovens atores amadores, quase todos com histórias de vida semelhantes às retratadas, é encabeçado por Fernando Ramos da Silva como o pequeno Pixote - o menino é a tradução da absurda injustiça em que vivem nossas crianças de rua e, talvez por reconhecer tão de perto aquela realidade, teve uma atuação extremamente realista e sincera; como a jovem travesti Lilica, Jorge Julião, absolutamente maravilhoso em sua interpretação; Gilberto Moura interpreta Dito, muito bem no papel, assim como Edilson Lino como Chico e Zenildo Oliveira Santos como Fumaça; Marília Pera interpreta a prostituta Sueli - nem precisa dizer o quanto sua interpretação é magnífica e visceral, afinal é a Marília Pera; Jardel Filho interpreta "Sapato", Elke Maravilha, Débora, e Toni Tornado, Cristal, todos ótimos. O filme chegou a ser indicado para o Globo de Ouro (1982) de Melhor Filme Estrangeiro. A obra é incrível, excelente, muito embora bastante indigesta, daquelas que a gente termina de ver com um peso no peito. Mais do que recomendado, ele é obrigatório - e por inúmeros motivos.

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