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  • hikafigueiredo

“Pureza”, de Renato Barbieri, 2022

Filme do dia (114/2023) – “Pureza”, de Renato Barbieri, 2022 – Meados da década de 90, interior do Maranhão, Brasil. Pureza (Dira Paes) é uma trabalhadora rural que vive com o filho Abel (Matheus Abreu) em um pequeno pedaço de terra. Ela e o filho sobrevivem fazendo tijolos em uma olaria, mas a pobreza faz com que o rapaz de 21 anos resolva partir para o Pará para tentar a sorte no garimpo. Após meses sem notícias do filho, Pureza resolve sair em busca de Abel e acaba se deparando com a terrível realidade do trabalho escravo nos confins do Brasil.





Baseado em uma história real, o filme retrata a saga de uma mãe em busca de seu filho, após descobrir, no trajeto, que ele, como muitos outros trabalhadores, estava sendo submetido a trabalho escravo nos cantões do país. O filme expõe o já conhecido esquema a que os trabalhadores são submetidos: em pequenas cidades interioranas, os trabalhadores são aliciados com promessas de boas condições de emprego e salários compatíveis. Ao concordarem, são levados, como gado, em caminhões, por estradas sinuosas, a fazendas nos locais mais distantes possíveis da civilização. Dentro das fazendas, a única opção é realizar compras de alimentos e outros produtos de primeira necessidade no armazém do patrão, que, logicamente, oferece preços extorsivos, de forma que, a cada dia, os trabalhadores se veem mais endividados. Sob uma falsa imagem de legalidade, os fazendeiros dizem que os trabalhadores poderão ir embora assim que saldarem as dívidas – o que, claro, é impossível de acontecer. Os mais exaltados são perseguidos, castigados e até mesmo mortos, e, os que sobram, acabam acatando as regras por medo, tornando-se, assim, escravos modernos. O filme mostra, com detalhes, as condições desumanas e a violência a que os trabalhadores estão submetidos, sempre sob o olhar analítico de Pureza, que aporta a uma dessas fazenda como cozinheira, mas que, na realidade, está investigando o paradeiro de seu filho. A temática, indubitavelmente, é de importância absoluta e a escolha de fio condutor – focar na imagem forte e determinada de Pureza – foi, sem dúvida, extremamente feliz. No entanto, vi duas fragilidades na obra: a primeira se refere à forma menos contundente como a realidade é mostrada, pois, pelo que eu já li por aí, as condições em que os trabalhadores vivem são ainda piores do que é mostrado no filme. Não se trata exatamente de sutileza – o filme teve o cuidado de não chocar demais, quando, na minha opinião, deveria chegar chutando a porta para chocar mesmo. Mas talvez essa tenha sido uma leitura minha, porque li comentários de pessoas que ficaram extremamente perturbadas com as informações contidas na narrativa (como gosto muito de dramas pesados, é possível que eu esteja mais “cascuda” que a média dos espectadores). A segunda fragilidade se deu no ritmo da narrativa – ele é um pouco irregular, passa muito tempo em alguns enfoques e, depois, “corre” demais em outros trechos. Esse ritmo ligeiramente errático não chega a comprometer a obra, mas fiquei com essa sensação de narrativa um pouco truncada, algo que teria sido facilmente resolvido numa edição mais cuidadosa. Também senti falta de uma atmosfera mais carregada, um tom mais sensorial, acho que o filme merecia isso. Tecnicamente é uma obra bem redondinha, tem uma fotografia caprichada, um desenho de produção adequado, uma edição de som bem-feita e a trilha musical acompanha a narrativa sem forçar manipulação (o que, para mim, já é uma glória). Como era de se esperar, muito daquilo que o filme tem de acerto se apoia na interpretação da monstruosa Dira Paes – essa atriz não erra nunca, ela é sempre fantástica e atinge o “ponto certo”, sem arestas de qualquer espécie. Dira Paes traz uma força descomunal para sua Pureza, sem se tornar piegas ou melindrosa – perfeição é o nome. O restante do elenco é quase todo desconhecido, mas destaco o bom trabalho de Sérgio Sartório como Zé Gordinho, Flávio Bauraqui excelente como Narciso e Mariana Nunes como Elenice. Destaque para as cenas finais, com as fotos das pessoas reais da história. Eu gostei bastante e recomendo, principalmente por ser uma realidade que ainda subsiste no interior do país e que precisa ser conhecida, discutida e combatida.

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