• hikafigueiredo

"Rodin", de Jacques Doillon, 2017

Filme do dia (296/2020) - "Rodin", de Jacques Doillon, 2017 - França, 1880. O escultor Rodin (Vincent Lindon) é um artista renomado e tem, como sua aluna mais talentosa, Camille Claudel (Izia Higelin), com quem tem um ardoroso caso amoroso. Com o fim da relação, Rodin dá um guinada no estilo de suas criações.





*Suspiro* Esse vai ser filme para dar pano para a manga. Antes de entrar nos méritos da obra, sinto a necessidade de comentar o seu conteúdo. Tenho a sensação de que este filme é um "resposta" à obra "Camille Claudel" (1988), um filme, por sinal, muito bom e muito mais "sanguíneo" que este aqui, que eu achei um pouco "apático". Se em "Camille Claudel" Rodin era retratado como um sujeito arrogante, egoísta e abusivo, aqui ele surge como um homem apaixonado por sua aluna, dividido entre duas mulheres, quase uma vítima da situação. Então... vamos situar o artista. Rodin era, indubitavelmente, genial em sua arte, um ponto completamente fora da curva. Além disso, ele era um artista conceituado já em seu tempo, ele era reverenciado e os aspirantes a escultores se estapeavam por uma vaga como aprendizes em seu ateliê. Ele viveu em uma época em que as mulheres eram submissas e o patriarcado imperava solitário sem afrontas do feminismo. Desculpe, bebê, mas acho infinitamente mais provável ele ser aquele sujeito arrogante e abusivo de "Camille Claudel" do que esse cara sensível e apaixonado de "Rodin". Tendo isto em vista, a obra me deixou a sensação de que foi feita para "passar o pano" na imagem do artista, deixando-o mais aceitável aos olhos do público, meio mal impressionado depois do filme "Camille Claudel". Aliás, o filme também foi feito em comemoração aos 100 anos da morte do artista, pegava meio mal mostrá-lo de uma forma um tanto quanto canalha rs. E mesmo neste filme, há, aqui e ali, momentos em que o espectador percebe uma propensão de Rodin à tirania, que nem passando o pano com alvejante conseguiu apagar. Após este não tão breve parenteses, vamos ao filme. A obra se atém a um fragmento da vida do artista, da época em que já era famoso e tinha Claudel como amante até alguns anos depois, quando Claudel, já afastada do escultor, dava mostras de sua instabilidade emocional e ele começava a levantar críticas por inovar em seus trabalhos. A obra dá especial atenção à criação de algumas obras famosas do artista como "Os Burgueses de Calais", "Porta do Inferno" e, principalmente, "Monumento a Balzac", uma obra bastante controversa do autor, e aos relacionamentos conturbados de Rodin com Camille Claudel e sua esposa Rose Beuret. O formato geral do filme é bastante convencional, a narrativa é linear, o ritmo é "lento europeu" (rs) e não há qualquer ousadia em termos de linguagem . O roteiro desenvolve-se bem, sem "trancos", mas, como já muito explanado, traz um Rodin bastante romantizado. Não gostei muito como as mulheres - tanto Claudel quanto a esposa Rose - foram retratadas na obra, pois elas sempre pareciam um pouco inadequadas, ou com pecha de louca, caso de Claudel, ou de ciumenta obsessiva, no caso de Rose (aka, louca do mesmo jeito). Por outro lado, gostei muito da estética do filme, tanto pela direção de arte de época, perfeita, quanto pela fotografia suave que privilegiou luzes e sombras, em especial nas cenas de ateliê. Gostei demais da interpretação de Vincent Lindon, que eu considero um ator fantástico, bem como de Izia Higelin como Claudel (mas que não chega em aos pés da energia de Isabelle Adjani no filme sobre a artista). Mesmo Séverine Caneele esteve bem como Rose, ainda que a personagem seja bem mais contida que os demais. É um bom filme, meio quadradão, mas que pode ser visto prazeirosamente, ainda que eu abra aquele loooooongo parenteses acerca da figura do artista. Eu recomendo assisti-lo em dobradinha com "Camille Claudel"...

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