top of page

“Rue Cases-Nègres”, de Euzhan Palcy, 1983

  • hikafigueiredo
  • 20 de out. de 2025
  • 3 min de leitura

Filme do dia (94/2025) – “Rue Cases-Nègres”, de Euzhan Palcy, 1983 – Martinica, 1930. O órfão José (Garry Cadenat), de onze anos, vive com a avó M’Man Tine (Darling Légitimus) à beira de um canavial dos senhores de terra brancos. Os negros do local, inclusive sua avó de idade avançada, trabalham nesse canavial, sendo mal pagos e sofrendo assédio pelos senhores brancos. Quando as crianças são chamadas para trabalhar no plantação, M’Man Tine impede José de se unir a elas, pois ela entende que aquele trabalho o manterá na miséria, almejando que o neto estude para sair daquela situação de pobreza e penúria.


 

Baseado no romance semiautobiográfico de Joseph Zobel, o filme foi o primeiro longa-metragem da diretora Euzhan Palcy, do ótimo “Assassinato Sob Custódia” (1989), e retrata, com detalhes, a vida de miséria e assédio dos negros da Martinica nos campos de cana-de-açúcar de senhores brancos, além de defender a importância da educação para as mudanças sociais. Na história, acompanhamos o órfão José, cuja avó idosa trabalha nos canaviais para mantê-los e sonha que o neto estude para romper o ciclo de miséria em que todos ali, descendentes de negros escravizados, vivem. José, um menino inteligente e estudioso, entendendo os anseios da avó, esforça-se para ser o melhor aluno da escola e, assim, conseguir uma bolsa de estudo em um colégio renomado, enquanto escuta os ensinamentos do ancião Medouze sobre a África e seus ancestrais. O filme, belíssimo, mostra quão parecidos foram os destinos de todos os países colonizados pelos europeus, os quais estabeleceram plantations nas terras colonizadas e trouxeram negros escravizados para nelas trabalharem. O que vemos nas telas não é diferente do que aconteceu no Brasil ou em todos aqueles países que foram explorados pelos colonizadores europeus e que, após a libertação dos negros escravizados, ganharam uma massa de trabalhadores pobres obrigados a trabalhar por pagamentos miseráveis para se manterem, enquanto a riqueza e o poder permaneceram nas mãos da elite branca. E ainda há quem não entenda a dívida histórica que existe em relação à população negra em todos estes países... A narrativa desenvolve-se como um verdadeiro enfrentamento a um destino aparentemente inevitável, mas, possível de ser modificado através da educação. Destaques: a ambientação magnífica da Martinica dos anos 30, retratando as condições de vida daquela população; a figura sábia do ancião Medouze, o qual mantinha vivas as tradições orais de seus antepassados africanos e passava ensinamentos verdadeiramente filosóficos e históricos ao menino José; e a figura igualmente sábia da avó M’Man Tine que, na sua simplicidade, entendeu o caminho para modificar o futuro do neto. O único porém que eu vi no filme foi que eu acho que ele reforça certos estereótipos daquela população negra quando coloca as crianças discutindo encantamentos (me remeteu às histórias de vudu) e quando todos dançam e cantam em volta das fogueiras à noite, ou cantam nas plantações – não sei, isso me soa meio clichê, por mais que advenha de um relato semibiográfico de um martinicano. Vale ressaltar as interpretações do menino Garry Cadenat como José – o ator mirim é uma graça, super expressivo, fiquei apaixonada por ele! –, de Douta Seck como Medouze, e, principalmente, da atriz veterana Darling Légitimus, que interpreta a avó M’Man Tine – há tal sobriedade na personagem que sentimos que estamos diante de uma verdadeira entidade! A interpretação de Darling Légitimus lhe rendeu o prêmio de Melhor Atriz no Festival de Veneza (1983), o qual ainda agraciou o filme com o Leão de Prata. O filme também recebeu o prêmio César (1984) na categoria de Melhor Primeira Obra. É um belo filme, foi um prazer assisti-lo e recomendo. Nono filme visto na 49ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.

 
 
 

Comentários


bottom of page