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“Sirat”, de Óliver Laxe, 2025

  • hikafigueiredo
  • 17 de out. de 2025
  • 3 min de leitura

Filme do dia (87/2025) – “Sirat”, de Óliver Laxe, 2025 – Luis (Sergi López) e seu filho Esteban (Bruno Núñez Arjona) andam por uma rave no Marrocos, em busca de sua filha e irmã “Mar”. Empunhando fotos da moça, eles abordam os frequentadores da festa e recebem apenas negativas como resposta. Ali recebem a informação de que outra festa acontecerá no deserto ao sul do Marrocos. Quando soldados chegam, dispersam a rave e obrigam todos a sair do local, um grupo de frequentadores foge em direção ao deserto, sendo seguidos por Luis e Esteban, decididos a encontrar Mar. Já na beira do deserto, o grupo tenta demover Luis de segui-los, avisando que o caminho é difícil e perigoso, mas Luis e Esteban estão irredutíveis. À medida em que todos adentram ao deserto, eles serão colocados à prova, uma experiência que modificará a vida de todos os envolvidos.


 

Eu achava que JAMAIS voltaria a ver um filme que me deixasse tão tensa e emocionalmente exaurida quanto “O Salário do Medo” (1953) e sua refilmagem “O Comboio do Medo” (1977) – isso até assistir a “Sirat”. A obra não é um soco no estômago – ah, não! -, é uma surra com taco de baseball! Prepare-se para suspender a respiração até quase morrer de apneia, horrorizar-se e sofrer... aaaaah, mas sofrer a valer! Tudo começa com o clima festivo de uma enorme rave num grande terreno árido e afastado no Marrocos – a música eletrônica e a dança frenética de seus frequentadores dando a tônica. Em meio ao caos animado, a figura preocupada de Luis e de seu filho pequeno Esteban, que procuram a filha e irmã desaparecida há cinco meses, quando se dirigiu a uma rave como aquela. Mostrando a fotografia da jovem aos participantes da festa, Luis e Esteban só recebem negativas, mas são informados de outra rave que acontecerá no deserto, ao sul do Marrocos, próximo à Mauritânia. A festa, subitamente, é interrompida por soldados, que forçam a evacuação, mas um grupo de frequentadores fura o cerco de consegue fugir em direção ao deserto, sendo seguidos por Luis e Estebán. O que parecia um ato de alegre rebeldia, logo se torna o pesadelo do grupo. Eu afirmo que o filme é cruel – por um longo tempo, ele nos incentiva a nos apegarmos aos personagens, revelando o quanto eles são animados, gentis, confiáveis e alegres, acolhendo-se mutuamente, enquanto desafiam qualquer padrão imposto – o grupo é composto por homens e mulheres não convencionais, que não se importam com suas aparências e imperfeições e que demonstram afeto genuíno uns pelos outros. Luis e Estéban claramente são elementos estranhos àquele grupo, mas, paulatinamente, vão se aproximando e criando laços de amizade com os integrantes. E quando o espectador menos espera, vem o golpe – um acontecimento vem arrancar o público daquela alegria contagiante e jogá-lo diretamente nas trevas. E não se preocupe: esse é apenas o primeiro passo para o abismo sentimental que virá adiante. Gente... que filme sofrido, angustiante e, ao mesmo tempo, arrebatador. Eu fui tomada por ele de um jeito que há muito tempo não acontecia! Com narrativa completamente linear, em ritmo inicial lento, mas com um “crescimento” vertiginoso, o filme é apoteótico (não necessariamente para o bem). Os destaques ficam por conta da ambientação – o deserto imenso, árido e sem fim, que rapidamente sai da tela para entrar nos nossos corações; a música eletrônica, que subitamente é substituída por uma vibração grave e contínua que parece nos corroer por dentro e que começa a preparar o terreno para o que vem a seguir; o roteiro surpreendente e absolutamente crível e que descreve um pesadelo acordado e sem chances de se acordar; e a presença dos intérpretes, quase todos amadores, mas que têm um apelo ímpar para nos afeiçoarmos a eles. Não posso deixar de mencionar a interpretação tão verdadeira de Sergi López, que me comoveu como o pai arrasado em busca de sua filha e de um motivo para seguir em frente. O filme foi agraciado com o Prêmio do Júri no Festival de Cannes (2025). Eu garanto que o filme vai muito, mas muito além do que a sinopse entrega. Eu amei a obra, apesar de ter envelhecido uns cinco anos por conta dele. Recomendo demais! Segundo filme visto na 49ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.

 
 
 

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