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  • hikafigueiredo

“Sorria”, de Michael Ritchie, 1975

Filme do dia (60/2024) – “Sorria”, de Michael Ritchie, 1975 – Big Bob Freelander (Bruce Dern) é um vendedor de carros usados na pequena cidade de Santa Rosa, Califórnia, e um dos juízes do concurso Young American Miss, anualmente promovido pela cidade. Brenda DiCarlo (Barbara Feldon) é a diretora executiva do concurso e esposa do melhor amigo de Bob, Andy (Nicholas Pryor), o qual se encontra em crise e beirando o alcoolismo. Juntos eles administrarão o concurso e os sonhos de diversas jovens estudantes atrás da vitória.




 

Não, não estamos falando do filme de terror “Sorria”, de 2022, sobre o qual já tratamos aqui. Esta obra homônima, do movimento de vanguarda Nova Hollywood, não poderia ser mais distante daquela, pois se caracteriza como uma comédia dramática que expõe uma série de questões sérias sobre a sociedade estadunidense, o american way of life e o chamado sonho americano. O filme retrata uma pequena cidade da Califórnia, seus habitantes e o “maior” evento do local, um patético concurso de miss para jovens estudantes. Neste panorama, sobra crítica para todos os lados, sempre num tom implicitamente debochado, muito possivelmente imperceptível para quem vivia (e vive) em localidades e realidades como aquelas. A sátira abarca desde o sexismo e hipocrisia evidentes deste tipo de evento – onde jovens meninas são avaliadas por juízes e por um público composto principalmente por homens mais velhos, numa interação digna de causar asco – ao comportamento francamente homoafetivo e infantilizado dos clubes exclusivamente masculinos, da família tradicional estadunidense à falsa felicidade imposta pela sociedade, onde qualquer sinal de insatisfação passa a significar fracasso. São tantas as críticas que se tornam impossíveis de enumerar e nem todas foram tão bem manejadas quanto outras, o que nem de longe torna o filme menos bom. Certo é que, na totalidade, a obra expõe uma sociedade que se julga ideal e perfeita, muito orgulhosa de si, mas que, na realidade, é falsa, hipócrita, vazia, rasa e profundamente doente. A narrativa é linear, abarcando alguns poucos dias, em ritmo moderado e constante. A atmosfera é curiosa, única, pois, ainda que o evento aparentasse alegria e os personagens, com raras exceções, demonstrassem estar animados e ansiosos, a história despertou sentimentos nada positivos – aquele simulacro de felicidade me angustiou, eu achei tudo muito deprimente, pois expôs um vazio existencial, uma falta de sentido em tudo, como se os personagens buscassem algo que lhes preenchesse a vida, desviando a atenção daquele vazio. Isso torna-se muito claro por diversas falas e comportamentos de diferentes personagens, como as falas e reações de Andy, o apego de Brenda ao concurso, a decepção de Robin, mas, principalmente, o impacto causado por uma observação de Andy em Big Bob. Paralelamente a isso, a objetificação daquelas meninas dentro o evento também pesou para mim, reforçando aquele sentimento de angústia. Confesso que o deboche implícito e o humor ácido de algumas cenas só serviram para reforçar essa sensação ruim. Algumas cenas se destacaram do conjunto da obra, mas as que me foram mais impactantes foram a cena da primeira apresentação das candidatas, na qual elas se expõem para um bando de homens velhos e “babões”, e a cena da cerimônia da galinha no clube masculino, um festival de boçalidade, infantilidade, etarismo e misoginia implícita. Formalmente, nada saiu muito do “roteiro” do movimento Nova Hollywood – temos a fotografia mais crua, sem nada muito rebuscado tecnicamente, muito música diegética (pertencente ao universo ficcional) e maior destaque ao conteúdo que à forma. O elenco traz um Bruce Dern maravilhoso como Big Bob – o personagem é complexo, pois muito dual, já que existe um conflito entre o que ele expõe e o que ele guarda para si, e o ator consegue trabalhar isso muito bem; Barbara Feldon também brilha como Brenda DiCarlo, a superficial diretora executiva do concurso, que esconde seu casamento fracassado e a desimportância de seu trabalho sob uma camada de falso glamour (para quem não liga nome à pessoa, a atriz ficou conhecida como a agente 99 no seriado “Agente 86”, nos anos 60); Nicholas Pryor interpreta Andy, o único personagem que percebe sutilmente a falta de significado na vida de todos, apresentando um ótimo trabalho. No elenco, ainda, Annete O’Toole como a concorrente Doria, Maria O’Brien como a candidata Maria e Joan Prather como a concorrente Robin. A atriz Melanie Griffith faz uma ponta como a candidata Karen. Eu realmente gostei demais da obra e acho triste ela ser tão pouco conhecida e divulgada. Recomendo demais. Infelizmente, o filme não existe em nenhum streaming, nem mesmo para alugar, restando caçá-lo online ou assistir em mídia física no box “O Cinema da Nova Hollywood 3”, da Versátil (só filmaço nesse box).

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