• hikafigueiredo

"Soylent Green - No ano de 2020", de Richard Fleischer, 1973

Filme do dia (465/2020) - "Soylent Green - No ano de 2020", de Richard Fleischer, 1973 - No ano de 2022, o detetive Robert Thorn (Charlton Heston) investiga a morte de um milionário executivo da empresa que detém o monopólio da produção de alimentos sintéticos Soylent, que alimenta toda a população do país, com exceção daqueles que tem poderia econômico para adquirir alimentos naturais. Durante suas investigações, Thorn se deparará com chocantes informações acerca da empresa e de seus produtos.





Existem alguns livros de ficção científica que norteiam nosso imaginário de futuro distópico (alguns, inclusive, bastante visionários), tais como "Admirável Mundo Novo", de Aldous Huxley, "1984", de George Orwell e "O Conto da Aia", de Margaret Atwood. A eles se juntam, além de suas versões cinematográficas, filmes como "Brazil, O Filme" (1985), "Blade Runner" (1982), "O Exterminador do Futuro" (1984), "O Planeta dos Macacos" (1968), só para citar alguns mais conhecidos e clássicos. Dentre estas muitas obras que anteveem um futuro sombrio e desesperançoso, talvez uma das mais chocantes seja esta aqui - "Soylent Green" -, que, assustadoramente, ganhou, no Brasil, o título "No Ano de 2020". O filme prevê um planeta superpopulacionado, onde os recursos naturais chegaram ao seu limite e a escassez de alimentos, água e espaço é a regra geral; além disso, o capitalismo produziu uma classe de milionários, possuidores de toda a riqueza e, obviamente, detentores únicos do poder político e de polícia do planeta; a população miserável é conduzida com mão de ferro pelos governos e está mais preocupada em conseguir sobreviver com sua rações semanais de comida sintética do que em qualquer forma de protesto ou rebelião. O acesso à cultura e ao conhecimento é limitado a alguns anciões, velhos professores e pesquisadores que insistem em consultar livros e publicações antigos, agora inexistentes (inclusive pela total ausência de papel). É neste mundo distópico que a narrativa se dá. Não posso discorrer acerca da maior revelação da história, porque seria um spoiler imperdoável, mas posso, ao menos, garantir que é bastante chocante. Mas, vou confessar que, de tudo na obra, o que mais me horrorizou foi uma visão completamente misógina do futuro: segundo este universo distópico, as mulheres - as jovens, as belas, as atraentes, claro - estariam vinculadas aos imóveis, sendo tratadas como parte da mobília (atenção, este termo, "mobília", é literalmente utilizado no filme), podendo ser disposta ao bel-prazer do proprietário, logicamente, todos homens. Essa ideia vai além de qualquer forma de prostituição, é a objetificação extrema da mulher, e me deixou estarrecida. Apenas para pontuar outras questões: a fotografia dos ambientes externos, sempre absolutamente lotados de pessoas, ganha um tom esverdeado para dar ideia de um ar completamente poluído; a direção de arte não se preocupou em imaginar uma evolução no design das coisas, então, qualquer eletrodoméstico, veículo e até mesmo vestimenta que aparece no filme tem o tipo de design utilizado na década de 1970 (o que é bem bizarro!); na história, o suicídio assistido seria permitido e até incentivado, existindo centros específicos para que as pessoas dessem fim digno às suas vidas miseráveis; não é falado, no filme, mas é evidente que a grande massa de população não teria qualquer trabalho e viveria, simplesmente, a vagar pelas ruas, atrás de suas porções de comida sintética, cedidas pelo governo. Bom... deu para sentir a obra, né? No elenco, o grande destaque é Charlton Heston como o detetive Thorn, como sempre fazendo o papel de herói conflituoso (tem vários filmes do ator que eu gosto, este inclusive, mas não o admiro nem como ator, nem como ser humano). A obra é uma enorme crítica à maneira como o ser humano tem agido em relação ao planeta e à sociedade, ao capitalismo e à destruição dos recursos naturais, é uma pedrada e faz o espectador pensar um pouco no que o futuro nos reserva. Sim, deprimente que só. Eu vejo gatilho para depressão na obra, não deve ser visto, na minha opinião, por quem já não está muito bem. Mas é um bom filme, muito bom, muito crítico, muito necessário. Recomendado. PS - o filme me fez lembrar a "ração" do Dória nas escolas. Será?

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