“Swallow”, de Carlo Mirabella-Davis, 2019
- hikafigueiredo
- há 4 horas
- 3 min de leitura
Filme do dia (06/2026) – “Swallow”, de Carlo Mirabella-Davis, 2019 – A dona-de casa Hunter (Haley Bennett), casada com o milionário CEO de uma empresa familiar, Richie (Austin Stowell), descobre-se grávida. A notícia alegra o marido e os sogros, mas Hunter desenvolve um preocupante transtorno que colocará em xeque inúmeras facetas de sua vida.

Muito embora seja classificado como suspense psicológico, o filme está, a meu ver, muito mais alinhado com um drama contido, que apenas flerta com o suspense. Extremamente competente, ainda que exija uma boa dose de leitura e interpretação, o filme mergulha no universo feminino ao tratar de temas e questões atinentes à condição da mulher numa sociedade patriarcal. Nossa protagonista – Hunter – é uma jovem humilde que se casou há pouco tempo com o rico herdeiro de uma grande empresa familiar. Para agradar o marido, Hunter encaixa-se, com perfeição, no papel de esposa “bela, recatada e do lar”, vivendo em função de seu casamento. Quando ela engravida, esposo e sogros festejam, mas algo parece fora do lugar para Hunter. Ocorre que a vida aparentemente perfeita da nossa protagonista é um mero engodo. Hunter é solitária, carente e silenciada pela situação em que vive. Seus assuntos, problemas e aspirações não importam a ninguém, nem mesmo ao seu marido, que a trata como um bibelô sem conteúdo ou complexidade. A gravidez não planejada desperta gatilhos relacionados às vivências da protagonista e a um terrível trauma do passado, fazendo com que Hunter desenvolva a Síndrome de Pica, um transtorno alimentar no qual a pessoa atingida tem compulsão por comer coisas aleatórias como terra, gelo ou pequenos objetos. Eu reconheço, na obra, uma discussão bastante válida sobre o controle da mulher na nossa sociedade machista e sobre a busca por voz e autonomia femininas. O casamento para Hunter é uma prisão, além de ser a extensão de um padrão vivenciado, desde a infância, que normaliza o controle das mulheres. A narrativa perpassa por temas como dogmas religiosos, repressão familiar, silenciamento feminino, falta de autonomia, autoconhecimento, vidas idealizadas, gravidez responsável, aborto legal, transtornos alimentares em mulheres, quebra de expectativas, liberdade de escolha, dentre outros. Para mim, acompanhar a trajetória da protagonista foi difícil, pois Hunter vivencia um grau de submissão e desumanização que chegou a me agoniar. Sem dar spoiler, afirmo que o desfecho acena com uma quebra de padrão, levando a personagem a buscar a autonomia jamais conquistada, mas nem de longe leva à catarse que a narrativa ansiava. É uma obra complexa, com muitas camadas, que merece uma leitura que vá além do superficial. Destaco o desenho de produção que consegue, com maestria, representar o vazio existencial e a solidão da protagonista através da ambientação de sua casa – um imóvel gigante, com espaços abertos e vazios, extremamente asséptico e com um ar “hospitalar”. Também gostei da fotografia colorida muito suave, pouquíssimo contrastada, discreta, a qual também contribui para uma atmosfera opressiva. Quanto às interpretações, adorei o trabalho de Haley Bennett – a atriz consegue imprimir em sua linguagem corporal, expressão facial e, principalmente, na sua voz, toda a repressão vivida pela protagonista. A personagem Hunter não fala, ela murmura; seus gestos são discretos, meticulosamente treinados para não saírem do script; seu olhar, ao contrário, grita por atenção e traz a dor de ser quem é. Ótima interpretação. Também achei boa a interpretação de Austin Stowell como o marido bonito, educado e totalmente ausente. Eu vejo um diálogo deste filme com “4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias” (2007), “Preciosa” (2009), “Nunca, Raramente, às Vezes, Sempre” (2020), “Querida Alice” (2022) e até mesmo o nacional “Virtuosas” (2025), por diferentes aspectos. Eu curti bastante o filme pelas temáticas abordadas, apesar de achar que elas estão um pouco sufocadas por certo mise-en-scène da história. Ainda assim, recomendo, em especial para o público feminino. Está fácil para ver no streaming Mubi.



Comentários