• hikafigueiredo

"System Crasher", de Nora Fingscheidt, 2019

Filme do dia (277/2020) - "System Crasher", de Nora Fingscheidt, 2019 - Beni (Helena Zengel) é uma menina de nove anos e sérios distúrbios psiquiátricos e comportamentais. Pulando de abrigo em abrigo, Beni só deseja retornar para sua mãe, a qual tem medo da criança e de seu potencial destruidor.





O filme adentra pela terrível e tristíssima realidade das crianças com condições psiquiátricas e psicológicas que não lhes permitem se adaptarem à vida em sociedade. Beni tem ataques de fúria incontida e potencial para destruir tudo por onde passa. Incontrolável e insubmissa, ela consegue que até os profissionais mais experientes joguem a toalha. Ao mesmo tempo, carente e doce quando calma, Beni desperta afeto e compaixão nas pessoas que compreendem sua situação - até o próximo ataque descontrolado de fúria. Para mim, que sou bipolar e fui uma criança dada a surtos de raiva, acabei por me reconhecer na menina, evidentemente guardadas as devidas proporções (ainda que, quando criança, partia para cima dos coleguinhas de escola com a mesma gana que Beni, não acabei em nenhum abrigo, graças ao bom deus e a paciência ilimitada dos familiares). Algumas questões me chamaram a atenção. A personagem Beni não se adaptar a nenhuma medicação existente me pareceu um pouco fora da realidade e o fato dela não ter qualquer acompanhamento psicológico/terapêutico também me pareceu improvável (porque, por mais insubmissa que ela fosse, ter sessões regulares com psicólogos seria, evidentemente, necessidade extrema). A obra acompanha as tentativas vãs e irregulares de trazer Beni ao convívio social. A narrativa é ligeiramente errática, como a evolução - para melhor ou pior - da condição da personagem. Achei interessante a forma como a diretora expôs os extremos dos ataques de Beni - partindo do ponto de vista da personagem, a tela ganha um tom vermelho sangue e o que a menina vê torna-se caótico e sem sentido (eu me lembro de ter essa exata sensação nos meus ataques de fúria infanto-juvenis). A narrativa é linear, o ritmo é muito intenso, acelerando muito nos momentos de crise. O grande destaque do filme foi a escolha de Helena Zengel como Beni: a personagem, com o tipo físico culturalmente associado aos anjos, torna-se uma máquina de guerra ao entrar em surto - seu rosto, vermelho como sangue, contorce-se em fúria e de sua boca surgem os mais agressivos impropérios, gritados a plenos pulmões; seu pequeno porte físico não impede que, em sua loucura, transforme-se em um animal incontrolável, impossível de ser contido por um único adulto. A mudança de tom da atriz mirim é incrível!!!! No elenco, temos ainda Albrecht Schuch como Micha, muito bem também; Lisa Hagmeister como a apavorada mãe de Beni; e Gabriela Maria Schmeide como a conselheira tutelar Sra. Bafané. O filme é excelente, mas dá certa agonia, pelo menos para mim que me identifiquei com a personagem Beni. Não é, por outro lado, uma obra com respostas fáceis - ou mesmo, respostas - deixando para o espectador a mesma sensação de impotência e desespero da equipe de profissionais que tenta encontrar uma solução para o caso da menina. Tampouco espere mensagens edificantes ao final do filme - elas não acontecerão. Eu adorei o filme e mesmo tendo visto-o em um domingo às oito horas da manhã - horário bastante tentador para aproximação de um sono desmedido -, não pisquei o olho nem por um segundo. Recomendo pacas!

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