• hikafigueiredo

"Tabu", de Nagisa Oshima, 1999

Filme do dia (272/2020) - "Tabu", de Nagisa Oshima, 1999 - Japão, século XIX. O jovem Sozaburo (Ryuhei Matsuda) de apenas 17 anos, entra para um destacamento especial de samurais do Shogun e logo sua beleza andrógina desperta a paixão e o desejo em diversos integrantes do grupo.





Em um espectro diametralmente oposto ao filme "Juventude Desenfreada" (1960), onde a ousadia de linguagem era a ordem do dia, temos aqui um filme bastante tradicional no que se refere à forma, onde a beleza e o cuidado técnico imperam e a ousadia fica por conta do tema que pode, erroneamente, ser identificado como a homossexualidade (mas que, na verdade, não é). O tabu a que se refere o título nem de longe está ligado à ligação afetivo-sexual entre homens, mas à relação entre a beleza física do personagem e seu caráter quase amoral. Sozaburo é um quase adolescente de beleza inegável, com traços quase femininos e um olhar maliciosamente penetrante. Ele tem consciência de sua beleza e de como hipnotiza os demais samurais, tornando-se alvo de suas paixões e desejos. A relação entre homens, naquele contexto, era vista como natural e não causava qualquer comoção ou controvérsia. Mas, o fato de Sozaburo ser o objeto de afeto de tantos homens causava disputas e ciúmes entre os integrantes do grupo, surgindo como elemento desagregador. Mas essa não era a grande questão, que, na verdade, residia em como Sozaburo utilizava sua magnitude para fazer jogos cruéis com seus admiradores. Em outras palavras, a beleza física do jovem conduzia a uma "feiúra" interna, uma maldade intrínseca ao jovem, não totalmente visível, mas que se esgueirava pelos subterrâneos das suas relações. O filme dá muito pano para a manga no que se refere às discussões filosóficas acerca do belo e de seu contraponto, o feio. Já a questão da homossexualidade, passa tão naturalmente pela obra que nem desperta alguma vontade em discuti-la. A narrativa é instigante quase na mesma medida que o personagem Sozaburo - extremamente bem amarrada e conduzida, a narrativa é linear e possui um ritmo lento e envolvente. Visualmente, é uma obra maravilhosa, o apuro na fotografia e na direção de arte são inegáveis. A construção do personagem Sozaburo se dá paulatinamente e demora para o espectador compreender o que há por baixo de tanta beleza.E vou te dizer - como Ryuhei Matsuda é extraordinariamente bonito, com uma expressão enigmática e olhos enviesados - ele está incrível no papel, pois não deixa transparecer, nem por um instante sequer, seus sentimentos, suas emoções e, principalmente, suas intenções. Único problema que eu identifiquei no filme é que tem um elenco enorme e, às vezes, eu me perdia nos nomes dos personagens, não sabia ao certo de quem estavam falando. No elenco, aliás, a presença do diretor de cinema Takeshi Kitano como capitão Toshizo; o outro lindo do filme, Shinji Takeda como tenente Soji; Tadanobu Asano interpreta o personagem Tashiro; e ainda tem uma galera, são muitos os personagens. O filme é lindíssimo, com destaque para a cena final (inteira). Adorei e recomendo.

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