• hikafigueiredo

"Terra dos Mortos", de George A. Romero, 2005

Filme do dia (199/2021) - "Terra dos Mortos", de George A. Romero, 2005 - Em uma realidade apocalíptica, a Terra está infestada de zumbis. Os humanos remanescentes vivem em cidades cercadas, aglomerados em espaços diminutos e na miséria, ou - quando ricos - em opulentas torres de vidro fortemente guardadas por exércitos particulares. Na cidade de Nova York, o magnata Kaufman (Dennis Hopper) controla tudo, sendo servido por Cholo (John Leguizamo) e Riley (Simon Baker), os quais fazem incursões aos espaços devastados para abastecer as dispensas e adegas dos abonados.





À primeira vista, pode parecer que a especialidade de George Romero era fazer filmes sobre zumbis. Isso é apenas meia verdade, pois a efetiva especialidade do diretor era, na realidade, fazer contundentes críticas sociais ao sistema capitalista, isso em forma de metáforas e alegorias. Nesta obra, mais uma vez, Romero denuncia as desigualdades e a crueldade do sistema em que a grande massa humana é miserável, sem qualquer acesso a bens e serviços, enquanto uma minoria privilegiada vive na opulência, conforto e segurança, em "torres de marfim", apartada por um fortíssimo aparato militar para garantir que sua vida ideal não sofra qualquer ameaça. Na distopia imaginada pelo diretor, a vida abastada dos ricos é garantida por mercenários que arriscam seus pescoços em incursões às áreas infestadas de mortos-vivos para prospectar e recolher qualquer resquício de luxo, como bebidas e charutos - mesmo que, para isso, ocorram "baixas" entre seus aliados. É neste cenário que os personagens Cholo e Riley perambulam - enquanto o primeiro corre atrás de produtos luxuosos e exclusivos para os abastados, o segundo tenta garantir algum benefício para os miseráveis da cidade. Em uma das investidas às áreas externas à cidade, Riley percebe o impensável: os zumbis começam a manifestar algumas capacidades cognitivas, aprendendo a utilizar ferramentas rudimentares e comunicando-se entre si. A narrativa é linear, em ritmo bem intenso. Lógico que, em sendo filme de zumbis, a atmosfera geral é de tensão, angústia e urgência. Outra característica da obra é seu apelo "gore" - são cenas e mais cenas de mutilações, decapitações, cabeças alvejadas que explodem, litros e litros de sangue cênico e muitas vísceras expostas largamente saboreadas pelos vorazes e gulosos mortos-vivos: a gente ri, mas é de nervoso rs. No elenco, o destaque evidente é Dennis Hopper como o milionário Kaufman, um canalha que não é leal sequer ao seus iguais - mais ou menos como qualquer abastado infame; John Leguizamo interpreta o latino Cholo, que, sem qualquer "consciência de classe", sonha em alçar degraus na sociedade e sair do chão para a "torre de vidro", até se dar conta que isso jamais lhe será permitido, pois, como lhe alerta o amigo Riley, eles não tem "o tipo certo" para entrar no clube; já Simon Baker faz o personagem Riley, um homem empático que já perdeu as esperanças em qualquer justiça e só quer ficar no sossego do seu canto; completando o elenco principal, Asia Argento como a "badass" Slack, Robert Joy como o infeliz - mas com uma ótima mira -, Charlie, e Eugene Clark como o líder dos zumbis. A obra é excelente, como tudo do diretor, super crítica e alegórica e certamente vai agradar tanto quem quer a farofa do filme de zumbis, quanto quem quer conteúdo e posicionamento político acerca da realidade. Filmão, hein, vale a pena!

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