• hikafigueiredo

"Terra em Transe", de Glauber Rocha, 1967

Filme do dia (119/2019) - "Terra em Transe", de Glauber Rocha, 1967 - Em Eldorado, um país fictício da América Latina, diferentes forças sociais lutam para chegar e se manter no poder, a despeito das necessidades da população. Neste panorama, Paulo (Jardel Filho), um poeta e jornalista, transita entre as candidaturas de Porfírio Diaz (Paulo Autran) e Vieira (José Lewgoy), buscando alianças que venham ao encontro de seus sonhos e aspirações de justiça social.





Acredito que esta seja a quarta vez que assisto a essa obra - mas, certamente, a primeira oportunidade em que a assisto com suficiente maturidade e consciência política para interpretá-la e compreendê-la, ainda que, talvez, não na sua totalidade. O filme trata, hipoteticamente, de um país fictício, mas, na realidade, discorre sobre a realidade político-social do Brasil daquele tempo - e do nosso, também. Profundamente crítica, alegórica e política, a obra toca em cada uma das nossas mazelas sociais e políticas, expondo os conchavos, os interesses externos e internos, os apadrinhamentos, as lutas por poder, a corrupção, as relações viciadas entre políticos, empresários, mídia e religião, as traições, as promessas de campanha, o poder das empresas transnacionais, as questões sociais, a miséria do povo, a busca por "salvadores da pátria", os discursos hipócritas, o populismo, a truculência policial, e por aí vai. O filme é um verdadeiro tratado acerca das relações políticas no Brasil e, a cada dez minutos de obra, temos pelo menos três frases que resumem alguma característica da nossa sociedade (seja acerca do povo, das elites, da classe média, dos políticos, do empresariado, etc). Pensa num tapa na cara... não, muito mais, pensa num cruzado do Mike Tyson - é basicamente isso que o filme faz com o espectador, jogando nas nossas fuças tudo de podre que existe bem embaixo do nosso nariz e que insistimos em ignorar. E não basta a obra ser crítica e profunda - ela ainda é extremamente atual (o que é deprimente, pois em cinquenta anos, nada mudou nas terras tupiniquins e tudo ou quase tudo que está no filme ainda acontece no agora). Prepare-se para se indignar, sofrer e se deprimir - ou não entenda nada, o que é fácil se você não colocar seus neurônios para trabalhar. Se o conteúdo é perfeito, a forma é igualmente impactante. Com uma câmera bem autoral, imagens fortes, personagens que olham diretamente para a câmera como se falassem diretamente ao espectador, a fotografia do filme é quase tão rica quanto seu conteúdo. Há o uso constante de alegorias, remetendo à nossa realidade. O discurso é inflamado, direto e firme, não há espaço para eufemismos. A concepção sonora é ótima, mas a qualidade de captação e edição de som deixa bastante e desejar (não foram poucas as vezes em que não entendi o que os personagens disseram, motivo pelo qual coloquei até legendas na imagem do DVD). Direção impecável, tanto quanto as atuações - mas, também, só tinha fera! Paulo Autran está monstruoso como o conservador Porfírio Diaz, sórdido como todos os políticos retrógrados; José Lewgoy, da mesma forma, está fantástico como o populista e covarde candidato "progressista" (pero no mucho); Jardel Filho também está ótimo como o contraditório, perdido e, por vezes, romântico Paulo; no elenco, ainda, Paulo Gracindo como Júlio Fuentes (o "Roberto Marinho" de Eldorado, detentor dos principais meios de comunicação), Hugo Carvana como Álvaro, Glauce Rocha como Sara (a personagem mais idealista e romântica da história), Danuza Leão como Sílvia, Jofre Soares como Padre Gil e Mário Lago como militar. Flávio Migliaccio tem uma pequena ponta, bastante importante, como homem do povo. Como se vê, só gente boa. A obra é FANTÁSTICA e só consegui perceber isto, de verdade, na quarta incursão (nas três anteriores, eu era muito jovem e ingênua e apolítica e tapada para compreender o filme. Super atual e mega significativo. Para ver e rever mais uma dúzia de vezes.

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