“Tic Tac – A Maternidade do Mal”, de Alexis Jacknow, 2023
- hikafigueiredo
- 27 de set. de 2025
- 3 min de leitura
Filme do dia (72/2025) – “Tic Tac – A Maternidade do Mal”, de Alexis Jacknow, 2023 – Ella (Dianna Agron) parece ter uma vida perfeita: profissionalmente bem-sucedida, um casamento feliz e com tempo e dinheiro para aproveitar cada minuto do seu tempo. No entanto, ela se sente incomodada pela constante pressão para engravidar, uma vez que ela não deseja ter filhos. Certo dia, Ella descobre que existe um tratamento revolucionário para despertar seu relógio biológico para a maternidade e, para agradar o marido e a família, resolve se submeter ao tratamento, sem imaginar as consequências disto.

Mesclando os gêneros terror e ficção científica, o filme aborda um tema clássico na existência de qualquer mulher – a maternidade. Com claro tom de crítica, a obra discorre sobre a questão – que deveria ser pessoal, mas não é – de querer ou não engravidar. Na sociedade patriarcal e machista em que vivemos, a mulher é moldada para aceitar a maternidade, não como uma escolha, mas como uma intercorrência natural e obrigatória de sua existência. Ter filhos surge como parte essencial na condição feminina e ir contra essa ideia ao rejeitar a imposição da maternidade é visto como uma aberração, algo antinatural. Na história, Ella jamais sentiu o desejo de ser mãe. A protagonista sente-se feliz, realizada e, acima de tudo, completa como ela se encontra – profissionalmente reconhecida e vivendo um casamento apaixonado com seu marido Aidan. No entanto, Ella é constantemente pressionada pela sociedade, nas figuras de seus amigos e de seus parentes, para engravidar e, assim, “formar uma família” (entre muitas aspas, uma vez que existem inúmeras conformações familiares). Eles alegam que Ella está correndo contra seu relógio biológico e, caso mude de ideia, não terá tempo hábil para engravidar. Com tantas pressões, Ella aceita se submeter, em segredo, a um tratamento experimental que promete fazer com que a paciente tenha a vontade de ser mãe. Ocorre que, como todo e qualquer tratamento médico, existem os efeitos colaterais – e Ella irá se deparar com consequências muito sérias por essa decisão. De certa forma, o filme é uma crítica feroz a essa interferência externa à vontade feminina, um desrespeito à individualidade e uma violência à mulher, e, os resultados, uma metáfora da maternidade compulsória. Eu achei a temática incrível, maravilhosa, mas, como filme de terror, a obra é apenas “okay”, em parte por sua previsibilidade. Principais pontos positivos: além dos já mencionados tema e crítica, o filme desenvolve uma atmosfera de tensão e, principalmente angústia, muitíssima acertada – não há pesadelo maior do que saber que você está sendo impingida a tomar uma decisão e fazer algo que mudará, para sempre, sua existência, uma coisa completamente contra a sua vontade e natureza. Essa angústia acompanha toda a narrativa, intensificando-se na medida em que nos aproximamos do desfecho. Outro ponto positivo é a ambientação criada para a narrativa – como todo o entorno da protagonista é no começo e o que ele se torna do meio para o final da história, com, inclusive, mudança de luz e de cores. Quanto ao trabalho do elenco, Dianna Agron está muito bem como Ella – a atriz consegue imprimir, na personagem, todos os medos, insatisfações e angústias que aquela situação desperta; menos talentoso, a meu ver, é Jay Ali, ator que interpreta Aidan, marido de Ella. Achei sua interpretação fraca, inexpressiva e protocolar. Já Melora Hardin causa calafrios e desconforto como a Dra. Elizabeth Simmons, o que significa que fez um bom trabalho. Eu acho que existe um diálogo, guardando as devidas proporções, entre essa obra e os filmes “A Filha Perdida” (2022) e “Mamífera” (2024) – todos tratam da maternidade obrigatória e desconfortável (talvez pudéssemos incluir “Tully”, de 2019, nesse rol). Enfim, é um filme de terror não sobrenatural razoável, mas com um desfecho no mínimo preguiçoso. O filme está disponível em streaming pela Disney + e em torrent.



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