• hikafigueiredo

"Topázio", de Alfred Hitchcock, 1969

Filme do dia (28/2022) - "Topázio", de Alfred Hitchcock, 1969 - Guerra Fria, 1962. Após a deserção e fuga para os EUA de um alto funcionário do governo soviético, ele e sua família são colocados sob a proteção do governo norte-americano, com a condição de revelar segredos da URSS. Dentre as informações passadas, há a menção a uma rede de espiões incrustrada na França, a qual repassaria informações sigilosas da OTAN ao governo soviético. Começa, então, uma longa investigação secreta para descobrir os integrantes desta rede internacional de espionagem.





A maior parte dos filmes do mestre Hitchcock discorre sobre pessoas comuns que se veem envolvidas em tramas e conluios dos quais nem sequer tinham notícia. A figura do "homem errado" - o inocente que é tomado por culpado e precisar provar sua inocência - pontua inúmeras obras do diretor. Hitchcock, ainda, raras vezes indicou, com precisão, quem seriam os "vilões", mantendo-se, no mais das vezes, à margem de disputas reais entre organizações, países ou mesmo ideologias. Neste filme, Hithcock subverte completamente esses parâmetros, pois baseia-se em um romance de Leon Uris inspirado em fatos reais, motivo pelo qual nomeia, com todas as letras, os envolvidos - no caso, os governos dos EUA, URSS, França e de uma Cuba recém saída da Revolução Cubana que levou ao poder Fidel Castro. A história gira em torno da famosa crise dos Mísseis Soviéticos em Cuba e a ação se estenderá por três dos países envolvidos na trama - EUA, Cuba e França. A história é intrincada e vai se abrindo em braços menores a ponto do espectador quase se perder, mas, no desfecho, tudo se resolve e se amarra com precisão. Confesso que fiquei incomodada pelo fato da trama, de certo modo, "escolher um time" - ao nomear os envolvidos, a história naturalmente se posiciona contra ou a favor algum dos lados e é óbvio que alguém "pagará de bom moço" nesse movimento. Mais evidente ainda, é que o "bom moço" será os EUA, arauto da democracia e liberdade (contém ironia). A obra, também, mostra de uma maneira um pouco mais realista a atividade dos agentes de espionagem que se apoia muito mais em encontros, tratativas e eventos sociais, num paciente jogo de xadrez, do que em ação propriamente dita - ou seja, não espere grandes perseguições, fugas mirabolantes, tiroteios encarniçados; o que teremos, na verdade, são encontros furtivos e negociações silenciosas, quase um cansativo balé de interesses, frustrando qualquer fã de James Bond ou da franquia "Missão Impossível". Isso, inclusive, leva a outra característica da obra - ela é bem menos ritmada que outras do diretor, chegando, em alguns momentos, a ser arrastada. Também temos muito menos construções de tensão, algo que notabilizou o diretor ao longo de sua carreira - claro que existe alguma tensão, mas ela é muitíssimo diluída ao longo da narrativa, de forma que não leva o espectador àqueles momentos de apneia prolongada. Outra característica que chamou a minha atenção foi o uso, em algumas passagens, de registros reais - filmagens do exército soviético, de manifestações em Cuba, ou de encontros políticos, algo que jamais vira nas obras do diretor. Tecnicamente, a obra mantém o cuidado habitual do diretor. Ressalto que, em várias passagens, Hitchcock optou por filmar momentos chaves sem o som correspondente - imaginamos o que se está discutindo pela reação dos personagens e não pelo diálogo entre eles, o qual foi suprimido (coisa que o diretor já havia feito em outras obras). Pela quantidade de personagens - como eu disse, a história é complicada, cheia de volteios -, o elenco é enorme, mas destaco o trabalho de Frederick Stafford como André Devereaux, o protagonista da trama; John Vernon como Rico Parra; Karen Dor como Juanita de Córdoba, Michel Piccoli como Jacques Granville e John Forsythe como Michael Nordstrom - na minha opinião, todos os atores e atrizes fazem um trabalho um pouco protocolar, isto é, todo mundo faz o suficiente, mas ninguém se destaca por sua interpretação excepcional. Acredito que, dos filmes do diretor, foi o que eu menos gostei até hoje, justamente por achá-lo meio morno demais (talvez pelo distanciamento dos fatos reais - alguém que tivesse vivido a Guerra Fria e a Crise dos Mísseis talvez tenha tido sensações e sentimentos muito diferentes dos meus). Mas, ainda assim, tem a qualidade inerente às obras do diretor, então encontra-se acima da média. Recomendo, mas com ressalvas.

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