• hikafigueiredo

"Veneno", de Todd Haynes, 1991

Filme do dia (57/2022) - "Veneno", de Todd Haynes, 1991 - Três histórias autônomas são narradas paralelamente: um menino de sete anos mata o pai agressor; um cientista descobre a fórmula do desejo sexual; e um prisioneiro reencontra um antigo colega de reformatório e por ele se apaixona.





Profundamente experimental, o primeiro longa metragem de Todd Haynes discorre sobre indivíduos fora dos padrões aceitos, pessoas cujas condutas são condenadas pela sociedade, levando-as a um limbo social, sem, no entanto, fazer-se qualquer juízo de valores a respeito de tais indivíduos. O olhar do diretor para seus personagens é de curiosidade científica, como se eles fizessem parte de um grande e talvez cruel experimento antropológico. Baseadas em obras de Jean Genet, as histórias - que se alternam - não têm qualquer relação entre si, exceto o fato de tratarem de personagens "outsiders" que transgrediram, intencionalmente ou não, as regras sociais impostas. A primeira história apresenta o caso de um estranho menino de sete anos, vítima de bullying na escola, que mata o pai agressor - tal narrativa se dá por meio de um falso documentário, com entrevistas de supostos vizinhos, professores, colegas e da mãe da criança, que oferece uma versão surreal do incidente. Aqui, a fotografia é colorida, mas de baixa qualidade, como se fosse uma gravação de televisão da década de 60 ou 70, bastante granulada e muito saturadas, com planos médios, padrão entrevista; a segunda história trata de um cientista que descobre a fórmula da libido e, por equívoco, acaba bebendo tal poção, desenvolvendo uma terrível reação. Em formato de thriller e com um pezinho no noir, a narrativa traz uma fotografia P&B bem marcada, com posições de câmera criativas e incomuns, quase extravagantes e planos variados, incluindo muitos planos-detalhe; a terceira história retrata um prisioneiro recorrente que reencontra um colega de reformatório, que se torna seu objeto de desejo. Aqui temos uma narrativa não linear, que alterna cenas do reformatório (passado) com outras da prisão atual (presente). A fotografia é colorida, sofisticada, com um belo trabalho de iluminação, em planos variados, mas com posicionamentos mais convencionais nas cenas da prisão, bastante diferente da fotografia das cenas do reformatório, que ganha um ar meio etéreo, como se existisse uma bruma, deixando as cores mais "lavadas" e com bem menos definição. Como os estilos diferentes de cada história, também as interpretações divergem entre si - na primeira, tratando-se do formato de entrevista, os intérpretes falam diretamente para a câmera, sem esboçar muitas emoções e com poucas expressões faciais; na segunda, as interpretações são exageradas e pouco naturais; na última, as interpretações são mais verdadeiras e viscerais e trazem momentos bastante perturbadores, constituindo-se na história mais pesada do trio. O filme ganhou o Grande Prêmio do Júri no Festival de Sundance (1991). Eu achei o filme interessantíssimo, não só pelo formato ousado, mas por apresentar narrativas fora do comum sem fechar qualquer "moral da história" - elas apenas são o que são. Recomendo para aqueles espectadores que curtem um experimentalismo.

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