• hikafigueiredo

"Whisky", de Juan Pablo Rebella e Pablo Stoll, 2004

Filme do dia (460/2020) - "Whisky", de Juan Pablo Rebella e Pablo Stoll, 2004 - Jacobo (Andrés Pazos) possui uma fábrica de meias. Marta (Mirella Pascual) é sua fiel funcionária. A visita de Hermann (Jorge Bolani), irmão de Jacobo, fará com que este peça para Marta fingir ser sua esposa durante a permanência do irmão em Montevidéu. Marta concorda e assim uma farsa é montada.





Delicada e sutil, a obra, "vendida" como uma comédia, é, na verdade, um drama dolorido sobre a solidão, sobre expectativas versus realidade, sobre palavras não ditas, sobre afetos e sobre disputas familiares. Entre Jacobo e Hermann existe uma evidente rivalidade, além de mágoas e mágoas acumuladas pelos anos. Jacobo ressente-se pela extroversão do irmão, por seu sucesso na vida familiar, por seu arrojo profissional. Hermann parece ignorar o ressentimento do irmão, mas também aparenta provocá-lo com minúcias relacionadas às antigas mágoas. Entre os irmãos, a personagem Marta, uma mulher solitária, contida e que guarda sentimentos escusos por seu patrão. A convivência entre os três irá acirrar afetos, emoções e atitudes, sempre de forma discreta e silenciosa. O filme, ótimo, exigirá certa sensibilidade do espectador para compreender os sentimentos velados que regem as relações entre os personagens. Não espere qualquer forma de arroubo, seja em forma de ação, seja através de diálogos, entre os protagonistas - não, tudo aqui é discreto, tudo está no não-dito, tudo está nas sutilezas. A narrativa é vagarosa, fluindo como um rio extremamente lento, em tempo linear. A atmosfera é pesada, angustiante, por vezes asfixiante, como se as palavras reprimidas sufocassem os personagens, em especial Marta. Olhares e pequenos gestos ganham importância face à ausência de ação dos personagens. A direção de arte e a fotografia colaboram no estabelecimento do "peso" da obra - sempre cores sóbrias e escuras, os ambientes majoritariamente pouco iluminados (com exceção do hotel), tudo sisudo como Jacobo... até que Marta quebra o padrão e veste um radiante vestido vermelho, sobressaindo-se do restante do ambiente, com obvia expectativa envolvida (sem spoilers). Os atores estão fantásticos em seus papeis: Andrés Pazos interpreta Jacobo como um homem ressentido, amargo, pouco sensível ao que acontece ao eu redor; Jorge Bolani, por sua vez, interpreta um Hermann bem mais solto, prestativo, gentil, chegando até a ser alegre; mas quem ganhou meu coração foi Mirella Pascual como a doce Marta, doçura esta recoberta por quilômetros de receios e constrangimentos, silêncios e muita contenção. O desfecho é mais sugestivo do que indicativo e vai depender um pouco da leitura do espectador. O filme me tocou profundamente, eu o achei lindo, mas há que se cavar para reconhecer esse tesouro. A obra recebeu o prêmio Un Certain Regard em Cannes, em 2004. Recomendo para pessoas sensíveis.

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