• hikafigueiredo

"Wolfwalkers", de Tomm Moore e Ross Stewart, 2020

Filme do dia (203/2021) - "Wolfwalkers", de Tomm Moore e Ross Stewart, 2020 - Irlanda, 1650. A menina Robyn é filha do caçador inglês Bill Goodfellowe, o qual foi designado pelo Lorde Protetor para dizimar os lobos da floresta adjacente aos muros da cidade. Seguindo o exemplo de seu pai, Robyn sonha em caçar lobos, o que a faz desobedecer as ordens paternas e se aventurar pela floresta, onde ela conhece Mebh, uma jovem wolfwalker - criaturas que são pessoas quando acordadas e lobos quando suas partes humanas dormem. Esse encontro modificará a vida das duas meninas.





Deslumbrante e completamente arrebatadora, essa animação consegue aliar uma história incrível com técnicas de animação 2D especialmente criativas e impressionantes. A história, que combina drama e fantasia, discorre sobre afetos, lealdade, empatia, comunhão com a natureza, responsabilidade e amizade. Com uma evidente mensagem conservacionista, a obra denuncia a sanha destruidora dos homens e o poder desagregador da religião quando desacompanhada de respeito pelas diferenças e fincada no fanatismo e arrogância. A história, ainda, critica a ausência de liberdade decorrente dos papeis sociais que se tornam amarras aos sonhos e à própria vida - ao ver o filme, o espectador convence-se de que a vivência na alcateia, baseada no bem do grupo e sob uma liderança cimentada pela sabedoria e equilíbrio, é infinitamente melhor e mais acolhedora do que entre o grupo humano, que tem suas bases na força e que se une em torno de uma liderança calcada no medo e na violência. A narrativa é muito bem construída e se vale de diversos expedientes originais no seu desenvolvimento: para assinalar a diferença entre o universo humano e o dos lobos há uma mudança drástica na animação em si, marcada pelo uso das cores e das formas - a realidade humana, baseada na visão, mostra-se muito colorida e estática; o mundo dos lobos, escorado não na visão, mas no olfato e na audição, perde as cores, ganhando tons cinza-azulados, mas ganha a fluência dos odores e dos sons, aqui representados por volutas amarelo-douradas. Visualmente o filme é M-A-R-A-V-I-L-H-O-S-O - muitíssimo colorida, a obra é marcada por cores vibrantes, muito saturadas e contrastadas, principalmente quando retrata a floresta, em tons amarelo-avermelhados e diversos tons de verde. A parte dos lobos é especialmente fluída, há um movimento difícil de explicar, mas que é inebriante e hipnótico. É uma animação profundamente criativa e autoral, muito diferente do que estamos acostumados nas animações mainstream tipo Disney ou Pixar (onde, a despeito de sua qualidade e seu detalhismo quase obsessivo, falta espaço para qualquer ousadia ou experimentalismo). Como se tudo o que eu narrei não fosse suficiente, ainda temos uma trilha sonora arrepiante, baseada em músicas folk e encabeçada por uma regravação da música "Running with the Wolves", interpretada pela admirável cantora norueguesa Aurora. Confesso que há tempos não me envolvia tanto com uma obra a ponto de me contorcer de agonia em algumas cenas. É um filme mágico, quase não tenho palavras. Merecia o Oscar de Animação, para o qual foi indicado. Recomendo para todo e qualquer público.

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